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Desde os anos 70 Freud é o autor de língua alemã cuja tradução é a mais debatida. O curioso é que, Freud escrevia de modo acessível visando à divulgação da psicanálise. Por que, então, a celeuma sobre sua tradução?
Uma das respostas é que sua obra não é apenas lida, mas estudada. Não só por psicanalistas, mas também por filósofos, semioticistas, críticos de arte, etc. Alguns textos são destrinchados frase a frase discutindo-se "o que Freud realmente queria dizer", dúvidas estas alimentadas por uma desconfiança das traduções que remonta aos anos 70, época em que o debate em torno da tradução de Freud transbordou para além dos especialistas, chegando ao público leitor de jornais.
Nos anos 80, quando se publicaram novos estudos abarcando outras importantes traduções em diversos idiomas, novas distorções e falta de distinções conceituais foram mapeadas, colocando todas sob suspeita e incentivando uma revisão geral das traduções.
Para Freud, havia uma sabedoria psicológica nos idiomas, e é da linguagem cotidiana que ele se servia para nomear conceitos e apontar nexos entre fenômenos. Um exemplo ilustrativo: Freud descreve um momento psíquico essencial - o cerne dinâmico da pulsão ou do instinto - que ele nomeia de Drang e que para outros idiomas foi traduzido por um termo mais pobre, pressão (pressure, poussée, presión). Ocorre que em português há um termo análogo ao Drang: ânsia. Tanto ânsia como Drang descrevem algo que brota do desconforto físico crescente (por exemplo, a ânsia do sufocado em respirar), passa pelo afã e aponta para o anseio (por exemplo, ânsia por viajar).
O nosso ânsia, tal como Drang, articula duas conexões importantes: uma com o corpo que sofre e impele, e outra com a psique que representa mentalmente os objetos de alívio almejados. Não haveria espaço aqui para demonstrar as implicações e os desdobramentos teóricos que ligam o desejo ao corpo e este à vida psíquica, bem como as relações entre sofrimento e prazer. Estes temas foram discutidos por Freud sempre empregando palavras ligadas à nossa experiência afetiva.
A nova tradução brasileira da obra de Freud opta por enfatizar a fluidez e o prazer da leitura no corpo do texto, portanto, um viés literário, mas ao fim de cada capítulo inclui um extenso corpo de notas com subsídios aos estudiosos. Com esse formato que resgata o texto fluido e expressivo de Freud, espera-se que a nova geração de leitores aprecie seu estilo e perceba suas múltiplas aberturas para a modernidade.
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